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Um aspecto do espólio dos instrumentos de física e química do Liceu/Escola Antero de Quental

Tanto a arte como a ciência são actividades humanas que resultam de uma necessidade de interpretação do mundo, partindo, é certo, de pressupostos e abordagens diferentes. No caso das ciências da natureza, estas descrevem os fenómenos que nela ocorrem, explicando como e por que ocorrem. É que o homem precisa de garantias de segurança, não dos sentimentos de angústia e de ansiedade provocados pelo caos de acontecimentos (quando não explicados) à sua volta. Por isso, só descobrindo os que a natureza esconde ele poderá aspirar a controlá-los e a dominá-los, e, sobretudo, a prevê-los, para que usufrua do sossego e do bem-estar possíveis. Tudo isto se vai fazendo de forma gradual, ao longo dos tempos e ao sabor dos vários contextos, político, económico e social, disponibilizados num dado período da história, mormente, em termos de matéria/objecto do pensamento.

 

Galileu, por exemplo, descobriu as leis do movimento da queda de um corpo, explicando este fenómeno através de uma relação entre a distância a percorrer pelo corpo e o tempo gasto nesse percurso. É daqui, aliás, que surgem conceitos como gravidade, velocidade ou aceleração. Explicou, pois, como caem (movimento) os corpos em queda livre. Já Newton, mais tarde, explica-nos por que caem os corpos – foi a descoberta da lei da gravitação universal. Uns anos depois, em tempos e contextos muito diferentes, Einstein descobre as leis da relatividade, ampliando, de forma extraordinária, os estudos dos seus antecessores. E, evidentemente, nada disto ficará por aqui, porque a irreversibilidade do tempo, a evolução, não dá tréguas à insaciável curiosidade do homem em relação a um mundo em grande parte, para ele, ainda desconhecido e onde permanece e permanecerá, por isso mesmo, inseguro.

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“Plano inclinado”, um modelo matemático para reprodução e estudo, em laboratório, do movimento da queda dos corpos.  Museu Galileo, Florença, Itália.

Mas o que tem tudo isto a ver com arte, como a pintura, a música, a dança, etc.? O  artista parece, de facto, estar muito longe do cientista. Este descobre aquilo que, não se deixando ver, passa a mostrar-se – o fenómeno, que uma vez explicado, resulta, então, num novo conhecimento. Aquele imagina coisas que não existiam, cria-as; e mesmo as coisas existindo, transforma-as, isto é, recria-as. O produto deste processo da imaginação criadora, o seu principal objectivo, é o belo e a sua fruição, ou seja, a obra de arte.

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Acontece, porém, que sem o domínio de determinadas técnicas suportadas pelas teorias da física, da matemática, da química, ou da geometria, a arte dificilmente teria alcançado os padrões de forma e de beleza que hoje ostenta. Brunelleschi, arquitecto e escultor renascentista (1377-1446, Florença, Itália), por exemplo, vai à geometria beber os conhecimentos necessários para operar uma verdadeira revolução nas técnicas de representação, com a descoberta da perspectiva.

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A perspectiva de um torniquete, num desenho de Leonardo da Vinci 
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 Anunciação, de Piero della Francesca, do Políptico de Santo António. “Piero era também matemático e demonstra aqui o seu domínio absoluto da ilusão perspectivista, usando o ponto de fuga para  transmitir a incompreensibilidade de Deus.” (David Wootton, A Invenção da Ciência, 2015)

“De facto, tendo a arte do Renascimento explodido no início do século XV com a descoberta da perspectiva, a técnica de representar o espaço tridimensional num plano, tanto as pinturas de Leonardo como as suas representações naturais e os desenhos mecânicos  mostram como ele dominava na perfeição a perspectiva: por exemplo, um torniquete do Codex Atlanticus (1478-1519) parece um desenho assistido por computador (CAD), dos que se fazem hoje. Graças à precisão dos seus esboços foi possível fabricar réplicas funcionais de alguns engenhos, que têm sido admiradas em exposições internacionais, como as que já estiveram em Lisboa e Porto.” (Carlos Fiolhais, “LEONARDO: CIÊNCIA E ENGENHO” no Blog “De Rerum Natura”, Abril de 2019).

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Fig. 1

É a imaginação criadora e a capacidade inventiva própria dos artistas que conferem, afinal, ao cientista, a possibilidade da demonstração da funcionalidade e da utilidade prática das suas teorias. A tecnologia é, pois, uma criação, muito embora, e ao contrário da arte, vise, sobretudo, a utilidade, e não o belo e o prazer da sua contemplação.

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Fig. 2

Mas já não é possível afirmar que o desenho do torniquete de Da Vinci está isento de beleza. E como negar a beleza do modelo matemático inventado por Galileu para testar a sua teoria sobre o movimento dos corpos ou o equilíbrio, a harmonia e a ordem presentes numa simples equação como E=mc? Não terá sido por acaso que Einstein afirmou ser a imaginação mais importante do que o conhecimento. Assim, como poderíamos, ainda, permanecer insensíveis, esteticamente, perante esses outros produtos da imaginação humana que são os instrumentos científicos construídos para reprodução e conhecimento dos fenómenos da natureza?

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Fig. 3

Um espólio de instrumentos científicos constitui um importante testemunho de como a abordagem estética é possível na história da ciência.

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Fig. 4

O espólio do antigo laboratório de Física do Liceu/Escola Antero de Quental, hoje transformado num importante núcleo museológico, quer em quantidade, quer na diversidade das peças que o constituem, ombreia com as colecções existentes em alguns dos mais antigos e prestigiados ex liceus portugueses, como o Pedro Nunes ou o Camões, ambos em Lisboa. Todos os instrumentos, cujas imagens foram aqui exibidas (Figs. 1 a 5 com descrição parcialmente apresentada), integram uma excelente publicação patrocinada pela Direcção Regional da Ciência, Tecnologia e Comunicações. A obra resulta de um notável trabalho de cooperação realizado há poucos anos entre Bruno Couto, professor de Física, e Alexandra Baptista, professora de Desenho – A que orientou os seus alunos na elaboração das ilustrações que reproduzem/recriam os instrumentos científicos fotografados.

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Fig. 5

A música e a ciência:

Será possível determinar todas as leis da Física e fórmulas da Geometria presentes neste espectáculo musical de J.J. Cale?

 

 

 

 

 

 

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