Decorria o mês de Fevereiro, sempre o mais frio do ameno inverno açoriano. Princípios do ano de 2020, sim, mas já o meu, que é o dos professores, ia a meio. Preparava-me então, para, terminando o ano lectivo, aguardar, no meu posto, pacificamente, a estreia, iminente, naquela outra etapa da vida onde o sabor da liberdade, dizem, é ainda mais vivo, após 42 anos exclusivamente dedicado ao serviço público.

Porém, inesperadamente, sou confrontado com o desafio da Editora “Letras Lavadas” para elaborar uma Fotobiografia de João Bosco Mota Amaral. Isso mesmo!

Percebi, de imediato, a dimensão do que me era pedido e, sobretudo, a responsabilidade que sobre mim recairia caso aceitasse o desiderato. E a decisão deu-se quase que por impulso instintivo. Afinal, Damásio não se engana quando releva as emoções como factor determinante das nossas decisões, embora também alerte para as suas consequências, por vezes nefastas, caso a emoção, no processo decisório, acabe por esmagar a razão…

Pus-me, assim, a gizar um projecto de fotobiografia capaz de abordar o pensamento e a acção do estadista que deixou marca indelével na História de Portugal do último meio século e que, nos Açores, habilmente, liderou uma nova geração fundadora da Autonomia política e administrativa, resgatando os Açores, desta vez sim, de uma opressão centralista de contornos colonialistas, lançando-os na senda de um progresso sem precedentes, desde o povoamento.

Tomei como principal fonte de investigação o imenso “Arquivo Pessoal João Bosco Mota Amaral” (que inclui uma livraria) doado à Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, e onde é possível descortinar, por entre valiosíssimo espólio, uma vida de incessante entrega à actividade política, em prol de Portugal.

Acabou o livro por albergar uma selecção (sempre subjectiva, claro está) de episódios que considerei significativos de um percurso cívico e político longo e muito rico. Mais precisamente, aqueles que julguei contribuírem para dar a conhecer ao grande público, e nas suas linhas gerais, o pensamento de João Bosco, o leque de valores ético-políticos, religiosos, estéticos que defendeu e defende, e o modo como estes se expressam na acção do político. E é pela impossibilidade de um livro abarcar todas as passagens fundamentais de uma vida recheada de mundo que este constitui, necessariamente, uma sinopse.

Nesta perspectiva, este trabalho, que tem um cunho pedagógico evidente, poderá, ainda, constituir uma chave de acesso a investigações aprofundadas e à actividade interpretativa por parte dos cientistas sociais acerca de um dos períodos mais interessantes da História de Portugal e, indubitavelmente, o mais empolgante da História dos Açores. Pelo menos, foi este um dos meus propósitos…

Agora que o livro foi publicamente apresentado, estando exposto à crítica e aos demais juízos de valor, achei que era devido este apontamento, por puro respeito a todos os que seguem o Azorean Torpor, ou que a ele acedem com frequência, e que é, também, um espaço público de livre opinião e comentário crítico. E assim continuará.

Luís Bastos

5 pensamentos sobre “Um livro sinóptico

  1. Posso estar a ser tendencioso pelo facto de termos construido uma forte amizade, ao longo dos anos, e são já muitos.
    Simultaneamente a amizade, admiração e gratidão que tributo ao Dr.João Bosco Mota Amaral podiam tolher-me o raciocínio, mas não.
    Trata-se pois de uma trabalho excelente, sobre a vida e obra de uma personalidade excelente , com uma entrega total e desinteressada à causa pública.
    Parabéns Luís

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  2. Os meus parabéns pela obra que, certamente, constituiu um enorme desafio, mas concerteza, também um grande estímulo ao retratar esta figura de uma dimensão indelévl para a nossa autonomia. Pedi à Rita para me arranjar um exemplar e não vejo a hora de o disfrutar.

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